O Homicídio de Renée Hartevelt

04/03/2024

"Às vezes pergunto-me por que razão fiz uma coisa tão horrível.

Talvez tenha sido porque vim de outro planeta ou de outra dimensão e, acidentalmente, caí na Terra como um meteorito, disfarçado de um bebé a chorar no meio da rua. A minha Mãe então passou e teve pena de mim. Devo ter vindo de um lugar de canibais e sou o único espécime do meu género neste Planeta."

Issei Sagawa

Renée Hartevelt
Renée Hartevelt
Issei Sagawa
Issei Sagawa

No dia 13 de Junho de 1981, um homem desceu do seu apartamento na Rua Erlanger, nr. 10, Paris, França, carregando duas grandes malas de viagem. Apanhou um táxi, dando instruções para se dirigir ao Parque Bois de Boulogne. Considerou ser o local ideal para se livrar das provas que carregava.

Mas o Parque era um local popular e houve quem tivesse reparado no homem asiático, com menos de metro e meio de altura, que se esforçava para carregar 2 grandes malas de viagem em direcção ao Lago.

A bizarra personagem decidiu sentar-se num banco para descansar um pouco e depois então finalizar a sua tarefa. Mas, em vez disso, deixou-se dormir acordando com os gritos de um idoso que decidira abrir uma das malas.

O homem então levantou-se e, muito calmamente, afastou-se do local, desta vez, de forma despercebida.

A Polícia chegou ao local em minutos ficando completamente chocada com o cenário. Deparou-se com partes de um cadáver dentro das duas malas. Era óbvio de que se tratava de um homicídio e de um completo desmembramento da vítima. Repararam também que faltava carne em algumas partes do corpo mas, mais informações, apenas após a autópsia.

Tratava-se de uma jovem Mulher e ficou provado que tinha havido sexo após a sua morte. Com perturbadoras evidências de assassinato, necrofilia e partes do cadáver desaparecidas, os Investigadores lançaram uma massiva caça ao homem em Paris e arredores.

Utilizaram os media na esperança de obter informações por parte da população e as pistas não tardaram a chegar. Foi o taxista que contactou a Polícia a informar que tinha transportado um homem asiático até ao Parque. Tinha ficado surpreso porque, quando viu as malas de viagem, assumiu que o homem quisesse dirigir-se ao aeroporto ou a uma estação ferroviária.

Menos de 48 horas após a descoberta das malas, a Polícia deteve Issei Sagawa à porta do prédio onde vivia. Confrontado com os factos, o homem confessou de imediato o crime.

Issei e Renée
Issei e Renée
Residência Issei Sagawa (google maps)
Residência Issei Sagawa (google maps)

Tratava-se de um homem de 32 anos, estudante na exclusiva Universidade de Sorbonne. Parecia ser um suspeito improvável mas, assim que os Investigadores entraram no seu apartamento, quaisquer dúvidas caíram por terra.

Existiam várias evidências de canibalismo. O frigorífico estava repleto de carne humana retirada da pobre vítima de Issei. Na mesa encontravam-se restos de uma refeição, também contendo a carne da sua vítima.

Renée Hartevelt, uma estudante alemã, tinha sido morta pelo seu Amigo Issei. E, para além de lhe arrancar a vida, Sagawa tinha-a violado, desmembrado e comido partes da pobre rapariga. Os acontecimentos chocaram Paris, chocaram França, chocaram o Mundo.
Mas, com certeza que, o maior choque foi para a Família de Renée.


Porém, o choque não se ficou pelo assassinato. O desfecho desta história é tão ou mais bizarro e tétrico do que o próprio crime.

Nascido em 1949 no Japão, Issei provinha de uma Família abastada. Eram restrictos e tradicionais mas, os seus Pais, eram bastante solidários com os objectivos e sonhos dos seus Filhos.

Devido a uma complicação durante o parto, Issei sempre foi de pequena estatura. Apesar do seu irmão ser mais novo, consideravam-nos gémeos por serem do mesmo tamanho. Mas Issei não era apenas pequeno. Sempre fora uma Criança bastante frágil.

Contudo, independentemente do seu tamanho, Issei era curioso e extremamente inteligente, criando uma ligação com os livros desde tenra idade.

Na adolescência, com complexos acerca do seu tamanho e com fetiches canibalistas misturados com desejos sexuais pouco apropriados, Sagawa tornou-se num rapaz tímido e envergonhado.
Chegou à casa dos 20 sem nunca ter confessado os seus terríveis pensamentos e muito menos tendo colocado os seus fetiches em prática.

Os seus desejos recaíam maioritariamente sobre as mulheres ocidentais. Fantasiava com mulheres altas, loiras e de olhos azuis mas, crescendo com aqueles desejos e não podendo concretizá-los, Sagawa aprendeu a controlar o seu comportamento para lá de bizarro.

Mas Sagawa sabia que era uma questão de tempo. Um dia que tivesse a oportunidade perfeita ou que lhe fosse dado um sinal, o homem ia concretizar uma vida inteira de intentos.

Sentiu o primeiro sinal aos 23 anos.

Vivia em Tóquio com os seus Pais e, quando uma rapariga alemã, com a aparência das mulheres das revistas, se mudou para o Bairro, Issei soube. Segundo as suas próprias palavras, Issei não pretendia matar a rapariga. Issei queria apenas dar-lhe uma dentada, provar a sua carne.
Numa noite, conseguiu entrar no quarto enquanto a Mulher dormia, envergando uma máscara do Frankenstein e um chapéu de chuva mas, assim que se aproximou da cama, a rapariga acordou de sobressalto. Sagawa ainda tentou fugir mas a sua quase vítima era corajosa e bem mais forte que o intruso. Conseguiu agarrá-lo por um braço.

Foi acusado de tentativa de violação mas as queixas foram rapidamente retiradas. A rapariga aceitou um pagamento por parte da Família de Sagawa.

Issei com o irmão
Issei com o irmão
Issei Sagawa
Issei Sagawa

O seu Pai, preocupado, mandou o rapaz para um psicólogo. Não demorou para que o médico o considerasse extremamente perigoso, porém, não foram tomadas quaisquer medidas.

Pelo contrário.

Em 1977, Issei fez as malas e voou para Oeste para tirar o seu Doutoramento em Literatura na Universidade de Sorbonne e era, realmente, um excelente aluno.

No entanto, Issei estava rodeado de tantas tentações e tão raras no Japão. Só na sua Turma tinha várias. Altas, com olhos grandes, umas loiras outras morenas. Beleza rara nas ruas de Tóquio mas era, exactamente, o tipo de beleza que Issei mais apreciava.

Mas, em 1981, uma rapariga sobressaiu entre as demais aos olhos de Sagawa. Renée Hartevelt, uma rapariga bondosa e crédula. Das poucas que tinha feito um esforço para conhecer melhor Issei, convidando-o para saídas nocturnas com o resto da turma.

Depressa Issei se apaixonou por Renée e, na sua mente perturbada, tinha que provar a sua carne. Foi a partir daquele momento que a sua obsessão tomou conta de si e que Sagawa iniciou o seu terrível plano.

Foi no dia 11 de Junho de 1981 que Renée foi apartamento do seu colega para lerem poesia alemã. Sagawa tinha-a convidado e, sendo ela muito fluente em alemão, pediu a sua ajuda, supostamente, para um trabalho da faculdade.

Quando a rapariga chegou, a noite já estava planeada e a espingarda que tinha comprado meses antes, estava a postos.

Renée sentou-se numa poltrona com o livro de poesia alemã na mão. Não fazia ideia que o seu Colega estava atrás de si a apontar-lhe uma arma ao pescoço. Issei optou pela surpresa, afirmando não querer olhar para os olhos da sua vítima enquanto cometia o terrível acto.
Passou 48 horas com o cadáver no seu apartamento, antes de tentar livrar-se dos vestígios no parque.

Mas, para além da sua confissão, existiam evidências por todo o seu apartamento. Para além do conteúdo do frigorífico, existiam filmagens e fotografias daquela noite. Issei tinha gravado todo o processo daquelas 48 horas.

A Polícia tinha então mais do que o necessário para uma sentença pesada. No entanto, meses depois do seu crime, Issei Sagawa não só saiu em liberdade como o fez com a assistência do Governo Francês.

Em França, por todos os crimes cometidos, existe sempre uma avaliação psicológica e psiquiátrica. Faz parte do Código Penal do País. Mas, no caso de Issei, na altura detido na Prisão de máxima segurança de Paris, a sua avaliação demorou mais de um ano para ficar concluída. No relatório final, Sagawa foi descrito como complexado devido à sua altura, pouco confiante e emocionalmente frio, apesar de satisfeito sempre que falava do homicídio. Em suma, os especialistas concluíram que Sagawa era louco, sendo que não podia enfrentar um julgamento.

A Família de Renée chegou a solicitar uma segunda opinião mas tal nunca se verificou.

Renée Hartevelt
Renée Hartevelt
Issei Sagawa
Issei Sagawa

Issei Sagawa devia ter ficado internado num Hospital Psiquiátrico indefinidamente, contudo e, uma vez mais, o seu Pai interveio. Contratou o melhor e mais caro Advogado de França e, como veio a verificar-se, tinha valido a pena.

Contactou o Departamento do Interior e o de Saúde Pública afirmando que considerava injusto que os Contribuintes franceses pagassem os tratamentos de Issei Sagawa. O Governo concordou. Issei devia ser deportado para o Japão com uma condição: jamais poderia voltar a França.

34 meses após cometer o terrível acto, Issei Sagawa regressou ao Japão como um homem livre. Ainda assim, para fugir às criticas da imprensa mundial, Sagawa foi institucionalizado num Hospital Psiquiátrico. Porém, 18 meses após o seu regresso ao Japão, Issei estava de volta à sociedade.

Mas a pressão sobre a sua Família continuava, sendo que o seu irmão mais novo, desenvolveu problemas de saúde relacionados com o stress, o seu Pai viu-se obrigado a despedir-se do seu importante cargo e a sua Mãe chegou mesmo a tentar o suicídio.

Apesar de tudo, Issei Sagawa não se manteve discreto.
Alegou, por várias vezes, arrependimento. Escreveu 20 livros acerca do seu crime e, apesar do conteúdo pouco próprio e de ser considerado moralmente errado aproveitar-se dos seus actos para enriquecer, um dos seus livros rapidamente esgotou.

Issei chegou mesmo a dar palestras em Universidades, fez várias aparências em programas de televisão. Sagawa tornou-se numa espécie de celebridade no Japão.

Os seus Pais faleceram em 2005 e Sagawa viveu tranquilamente em Tóquio sob outro nome até à sua morte. Faleceu em 24 de Novembro de 2022, na sequência de uma pneumonia.

Numa das suas entrevistas, confirma não estar curado dos ímpetos canibalistas, porém, sendo que homicídio está fora de questão, aprendeu a controlar os seus desejos por carne humana.

"Ao disparar uma bala tão pequeno como o meu dedo mindinho, fiz sofrer e mudei a vida de muita gente. Existem consequências por matar alguém. Se tivesse sabido disso mais cedo, havia muita gente que ainda estaria viva. (...)

Não sabia da existência de Renée até quase ao final do curso.
Ela era tão bonita. Nunca tinha visto uma mulher como ela.
Não queria ser apanhado a olhar para ela então fiz um desenho.
Talvez se tivéssemos jantado uma vez mais, eu não a teria comido.

Eu menti-lhe e disse que o meu professor queria uma gravação de poesia alemã. Foi esse o pretexto. Ela não desconfiou de nada. Eu escolhi o poema. Fui buscar a arma enquanto ela lia. Estava a falar com ela com um sorriso na cara. Eu estava muito assustado. Ainda assim, premi o gatilho. Ela continuou a falar até que parou de repente. Primeiro colapsou em cima da secretária, depois, caiu para o chão juntamente com a cadeira.
Pus-lhe uma toalha em cima da cara e depois despi-a. Tinha tudo planeado na minha cabeça... com que partes ia começar a deleitar-me e assim..."

[O resto da descrição é demasiado perturbadora para aqui colocar. Aos interessados, o link está no fim do post.]

"Decididamente, a minha infância foi a época mais feliz da minha vida. Não tinha preocupações. Os meus Pais amavam-se incondicionalmente. Criaram-me com muito amor, rodeados pela natureza."

Retrato de Renée feito por Issei
Retrato de Renée feito por Issei

"Nasci prematuro e os médicos achavam que eu não iria sobreviver. E permaneço fraco até este dia. Ainda sou baixo e fraco.

Recuando até à minha infância, o sexo ainda era um assunto tabu. Nunca ouvi os meus Pais a verbalizarem a palavra sexo. Assim, quando cheguei a uma certa idade e tive uma recção, pensava que estava doente. Senti-me extremamente envergonhado. E não sabia masturbar-me. Então fiz coisas muito estranhas, como fazer o meu cão lamber. Penso que os meus desejos sexuais começaram a distorcer-se por essa altura.

Quando estava no primeiro ano, fiquei fascinado com a coxa de um bonito colega. A primeira vez que senti desejos canibais por uma mulher, era tão tímido que as minhas mãos começaram a tremer e apeteceu-me vomitar quando a chamei. Mas quando vi as suas coxas pálidas por debaixo da saia, fez-me querer comer a sua carne."

"Não sei por que razão me sinto atraído por mulheres estrangeiras. Eu era baixo e fraco e as mulheres ocidentais são altas e fortes. Acho que sempre tive um forte anseio por elas.

Quando vivia em Tóquio, uma vez, passou uma bonita mulher loira por mim e eu fiquei deslumbrado pelas suas coxas pálidas. Fiquei convencido que ela morava nos meus apartamentos onde a minha Avó vivia. Uma vez, enfiei-me dentro do apartamento, no chão. Ela estava a dormir nua. Planeei bater-lhe na cabeça com um chapéu de chuva e pô-la inconsciente. Depois ia buscar uma faca à cozinha dela e cortava-lhe o rabo para o comer. Hesitante, rastejei até ela mas os meus joelhos tocaram-lhe na barriga. Ela gritou por ajuda e eu fui apanhado. A Polícia acusou-me de tentativa de violação. Os Médicos não viram canibalismo no que fiz e obviamente, eu não disse nada.

Saí de Tóquio no dia 26 de Abril (1977), no dia no meu 28º aniversário. Fui para Paris estudar literatura na Universidade de Sorbonne. Estava no terminal do aeroporto com o meu passaporte na mão e a minha Mãe olhava para mim com um ar tão triste, parecia saber que algo de horrível ia acontecer. Os seus instintos maternais encheram-na de preocupação."

"Na altura em que fui para Paris, já tinha cometido um crime. Era obcecado por canibalismo. O meu desejo de comer uma mulher tinha-se tornado numa obrigação.

Esta foto é muito simbólica. Bois de Boulogne ficava do outro lado da minha Universidade. Acabei por me desfazer do corpo ali. Esta foto foi tirada muito antes do crime acontecer, como sendo uma premonição.

Este era o meu quarto. Aqui era a casa de banho onde cortei o corpo de Renée e era aqui que escondia a arma. Aqui era onde ela estava sentada. Alvejei-a por trás."

[Fotos abaixo]

"Junho é o mês mais quente em Paris. Tinha medo que o corpo apodrecesse, tinha que me livrar dele e achei que tinha que o cortar.

Depois de me graduar, queria ir para a Grécia. Apanhei um barco de luxo e partilhei a mesa com um talhante e com a sua esposa. Ele era um homem gordo e alegre e explicou-me como cortar carne. Depois do incidente, escrevi-lhe uma carta de agradecimento mas ele não me respondeu.

Cortar um corpo não é fácil. Comprei 2 malas de viagem mas não foi fácil colocar o corpo lá dentro. O torso é extremamente pesado. Mas, antes de mais, é muito difícil de o cortar. Não é como nos filmes de terror."

"O lago em Bois de Boulogne não saiu da minha cabeça. Quando o taxista chegou, pegou nas malas com o cadáver lá dentro e eram tão pesadas que ele perguntou se estava um cadáver lá dentro. Eu disse-lhe que eram livros.

Fui um tolo por não ter pensado que, às 20h00, na altura do Verão, ainda havia muita luz. Ainda havia muita gente na rua a apanhar sol. Não sabia onde sair mas tinha que o fazer. Estava toda a gente a olhar para mim. Encontrei um lugar sossegado e empurrei as malas por um declive até ao lago. Não tinha mais energia.
O sol estava a pôr-se do lado do lago. Estava tudo vermelho e muito bonito. Vi um velhote com uma criança e, pela primeira vez, vi o Mundo a cores. Enquanto apreciava a paisagem fascinado, ouvi alguém a gritar. Olhei para trás e vi um homem a abrir uma das malas. Perguntou-me se eram minhas. Se lhe tivesse dito que sim, talvez se tivesse ido embora mas, impulsivamente, disse-lhe que não. Então ele abriu-a toda e viu um lençol cheio de sangue e gritou ASSASSINO a olhar para uma mulher que estava no cimo da colina.
Afastei-me."

"4 dias depois fui detido. Senti-me aliviado. Pensei que, finalmente, podia comunicar com as pessoas. Fui entrevistado por 3 psiquiatras. Concluíram que era insano. (...)"

Entrevista de Sagawa: https://www.youtube.com/watch?v=BosZxa1bYcE

Mala onde Renée foi encontrada
Mala onde Renée foi encontrada

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